Em 1897 conhecíamos uma partícula elementar, o elétron. Em 2012, com o bóson de Higgs, as 17 partículas do Modelo Padrão estavam todas observadas. Esta linha do tempo reúne as descobertas que levaram de uma situação à outra e também as previsões teóricas que vieram antes de várias delas.

Os círculos marcam descobertas experimentais, os losangos marcam previsões teóricas e a estrela marca a única descoberta da lista que veio de um evento astrofísico. Os arcos acima da linha ligam cada previsão à observação que a confirmou, e o número sobre o arco é o tempo que nós levamos para ir de uma à outra. O arco tracejado entre Yukawa e o múon registra um engano que durou dez anos, porque a partícula encontrada em 1937 tinha a massa prevista mas quase não interagia com os núcleos.

1900 1925 1950 1975 2000
  1. 1897

    elétron

    J. J. Thomson mostra que os raios catódicos são partículas com carga negativa e massa mais de mil vezes menor que a do átomo de hidrogênio. O átomo deixa de ser indivisível.

    como se mediu

    Thomson fez os raios catódicos passarem por um campo elétrico e um campo magnético cruzados. Ajustando os dois até que o feixe seguisse reto, ele obteve a velocidade das partículas. Desligando o campo elétrico, a curvatura do feixe no campo magnético deu a razão entre a massa e a carga. O valor era o mesmo qualquer que fosse o gás do tubo ou o metal do cátodo, e mais de mil vezes menor que o do íon de hidrogênio na eletrólise. Hoje sabemos que o próton tem 1836 vezes a massa do elétron.

    • J. J. Thomson (1897). Cathode Rays. Philosophical Magazine 44, 293.
  2. 1911

    núcleo atômico

    Rutherford interpreta os desvios de partículas alfa numa folha de ouro, medidos por Geiger e Marsden. Quase toda a massa do átomo está num núcleo dezenas de milhares de vezes menor que o próprio átomo.

    Retrato de Ernest Rutherford
    Ernest Rutherford
    como se mediu

    Em 1909, Geiger e Marsden notaram que cerca de uma em cada 8000 partículas alfa voltava para trás ao atingir uma folha fina de platina. No modelo de Thomson, com a carga positiva espalhada por todo o átomo, isso era praticamente impossível. Rutherford calculou como uma carga concentrada num ponto desviaria as partículas alfa e previu que o número de partículas espalhadas cairia com o ângulo θ como 1/sen⁴(θ/2). Geiger e Marsden mediram essa dependência em 1913 e encontraram exatamente essa forma.

    • H. Geiger & E. Marsden (1909). On a Diffuse Reflection of the α-Particles. Proceedings of the Royal Society A 82, 495.
    • E. Rutherford (1911). The Scattering of α and β Particles by Matter and the Structure of the Atom. Philosophical Magazine 21, 669.
    • H. Geiger & E. Marsden (1913). The Laws of Deflexion of α Particles through Large Angles. Philosophical Magazine 25, 604.
  3. 1919

    próton

    Rutherford bombardeia nitrogênio com partículas alfa e vê sair núcleos de hidrogênio. Eles fazem parte de todos os outros núcleos e, em 1920, recebem o nome de próton.

    como se mediu

    Rutherford fez partículas alfa atravessarem gás nitrogênio e observou cintilações numa tela de sulfeto de zinco colocada além do alcance das próprias partículas alfa. Algo mais leve e mais penetrante saía do gás. Pelo alcance e pelo desvio num campo magnético, ele concluiu que eram núcleos de hidrogênio arrancados dos núcleos de nitrogênio. Em 1925, Blackett fotografou a reação numa câmara de nuvens e mostrou que a partícula alfa era absorvida e que o núcleo resultante era de oxigênio.

    • E. Rutherford (1919). Collision of α Particles with Light Atoms. IV. An Anomalous Effect in Nitrogen. Philosophical Magazine 37, 581.
    • P. M. S. Blackett (1925). The Ejection of Protons from Nitrogen Nuclei, Photographed by the Wilson Method. Proceedings of the Royal Society A 107, 349.
  4. 1923

    fóton

    Compton espalha raios X em elétrons e mede o aumento do comprimento de onda. O resultado só se explica tratando a luz como partícula com energia e momento, e os quanta de luz de Einstein passam a ser aceitos.

    como se mediu

    Compton fez incidir raios X da linha Kα do molibdênio, com comprimento de onda de 0.071 nm, sobre um bloco de grafite e mediu com um espectrômetro de cristal o comprimento de onda dos raios espalhados. Quanto maior o ângulo de espalhamento, maior o comprimento de onda. Tratando a colisão como um choque entre um fóton com energia hf e momento h/λ e um elétron livre, ele obteve Δλ = (h/mₑc)(1 − cos θ), cerca de 0.0024 nm a 90°, de acordo com as medidas.

    • A. H. Compton (1923). A Quantum Theory of the Scattering of X-rays by Light Elements. Physical Review 21, 483.
  5. 1928

    Dirac prevê a antimatéria

    A equação relativística de Dirac para o elétron tem soluções de energia negativa que ninguém esperava. Em 1931 ele as interpreta como um antielétron, com a massa do elétron e carga positiva.

    Retrato de Paul Dirac
    Paul Dirac
    o argumento

    Dirac procurava uma equação para o elétron compatível com a Relatividade e de primeira ordem no tempo. A equação que encontrou explicava o spin do elétron sem hipóteses adicionais, mas tinha soluções de energia negativa que não podiam ser simplesmente descartadas. Em 1930 ele propôs que todos os estados de energia negativa estivessem ocupados e que uma vaga nesse mar se comportasse como uma partícula positiva, e chegou a supor que ela fosse o próton. Weyl e Oppenheimer mostraram que a vaga teria de ter a massa do elétron, e em 1931 Dirac a chamou de antielétron.

    • P. A. M. Dirac (1928). The Quantum Theory of the Electron. Proceedings of the Royal Society A 117, 610.
    • P. A. M. Dirac (1931). Quantised Singularities in the Electromagnetic Field. Proceedings of the Royal Society A 133, 60.
  6. 1930

    Pauli propõe o neutrino

    O decaimento beta parecia violar a conservação da energia. Pauli propõe, numa carta, uma partícula neutra e muito leve que levaria a energia que falta. Fermi a chamou de neutrino.

    o argumento

    Em 1914, Chadwick mostrou que os elétrons do decaimento beta saem com energias distribuídas num espectro contínuo, e não com um valor fixo, como acontece com as partículas alfa. Se o núcleo passa de um estado de energia bem definida a outro, a energia que falta tem de ir para algum lugar. Bohr chegou a considerar que a conservação da energia valesse apenas em média. Pauli preferiu uma partícula neutra, leve e muito penetrante, emitida junto com o elétron. Em 1934 Fermi construiu a teoria do decaimento beta incluindo essa partícula, e no mesmo ano Bethe e Peierls estimaram que ela atravessaria anos-luz de matéria sólida sem interagir.

    • W. Pauli (1930). Carta aos participantes da reunião de Tübingen, 4 de dezembro de 1930.
    • E. Fermi (1934). Versuch einer Theorie der β-Strahlen. Zeitschrift für Physik 88, 161.
    • H. Bethe & R. Peierls (1934). The Neutrino. Nature 133, 532.
  7. 1932

    nêutron e pósitron

    Chadwick identifica o nêutron, neutro e com massa próxima à do próton. No mesmo ano, Anderson fotografa em raios cósmicos, numa câmara de nuvens, o antielétron de Dirac, o pósitron.

    Fotografia em preto e branco de uma câmara de nuvens com o rastro curvo de um pósitron atravessando uma placa de chumbo
    Rastro do pósitron na câmara de nuvens de Anderson, 1932
    como se mediu

    Bothe e Becker tinham visto que o berílio bombardeado com partículas alfa emitia uma radiação muito penetrante, e o casal Joliot-Curie mostrou que ela arrancava prótons da parafina. Se fosse radiação gama, os fótons precisariam de energias muito maiores do que as disponíveis. Chadwick mediu os recuos de prótons e de núcleos de nitrogênio e concluiu que se tratava de uma partícula neutra com massa próxima à do próton. Anderson usava uma câmara de nuvens num campo magnético, com uma placa de chumbo de 6 mm no meio. A placa freava a partícula e mostrava o sentido do movimento, a curvatura indicava carga positiva e o alcance do rastro excluía o próton.

    • J. Chadwick (1932). Possible Existence of a Neutron. Nature 129, 312.
    • C. D. Anderson (1933). The Positive Electron. Physical Review 43, 491.
  8. 1935

    Yukawa propõe o méson

    A força nuclear tem alcance muito curto. Yukawa propõe que ela seja transmitida por uma partícula com cerca de 200 vezes a massa do elétron. Quanto maior a massa do mediador, menor o alcance da força.

    Retrato de Hideki Yukawa
    Hideki Yukawa
    o argumento

    Yukawa partiu da analogia com o Eletromagnetismo, em que a força é transmitida pelo fóton, que não tem massa, e o alcance é infinito. Se o mediador tiver massa m, o princípio da incerteza limita o alcance da força a cerca de ħ/mc. Para um alcance da ordem de 2 × 10⁻¹⁵ m, o tamanho de um núcleo, a energia de repouso do mediador fica perto de 100 MeV, cerca de 200 vezes a do elétron. Por ter massa intermediária entre a do elétron e a do próton, a partícula ganhou o nome de méson.

    • H. Yukawa (1935). On the Interaction of Elementary Particles. I. Proceedings of the Physico-Mathematical Society of Japan 17, 48.
  9. 1937

    múon

    Neddermeyer e Anderson encontram nos raios cósmicos uma partícula com a massa prevista por Yukawa. Só em 1947 ficou claro que ela quase não interage com núcleos. É uma versão pesada do elétron, com 207 vezes a sua massa.

    como se mediu

    Neddermeyer e Anderson mediram quanta energia as partículas dos raios cósmicos perdiam ao atravessar uma placa de platina dentro da câmara de nuvens. Algumas perdiam muito menos do que um elétron de mesma curvatura perderia e não formavam chuveiros, mas ionizavam pouco demais para serem prótons. A massa ficava entre as duas. Em 1947, Conversi, Pancini e Piccioni mostraram que essas partículas, quando negativas e paradas em carbono, decaíam em vez de serem capturadas pelos núcleos. Uma partícula responsável pela força nuclear seria capturada quase de imediato.

    • S. H. Neddermeyer & C. D. Anderson (1937). Note on the Nature of Cosmic-Ray Particles. Physical Review 51, 884.
    • M. Conversi, E. Pancini & O. Piccioni (1947). On the Disintegration of Negative Mesons. Physical Review 71, 209.
  10. 1947

    píon e káon

    Lattes, Occhialini e Powell encontram o píon, o verdadeiro méson de Yukawa, em emulsões fotográficas expostas nos Pireneus e no monte Chacaltaya, na Bolívia. No mesmo ano aparece o káon, a primeira partícula estranha.

    César Lattes nos Andes em 1947
    César Lattes nos Andes, 1947
    como se mediu

    As novas chapas da Ilford, com emulsão mais espessa e sensível, registravam o rastro de uma partícula carregada como uma trilha de grãos de prata. Lattes levou chapas ao monte Chacaltaya, a 5200 m de altitude, onde o fluxo de raios cósmicos é muito maior que ao nível do mar. Ao microscópio, a equipe encontrou rastros em que uma partícula parava e dela saía outra, sempre com o mesmo alcance. Era o píon decaindo em múon, e a contagem de grãos mostrava que a primeira partícula era mais pesada que a segunda. No mesmo ano, Rochester e Butler viram numa câmara de nuvens rastros em forma de V, vindos do decaimento de uma partícula neutra e pesada, o káon.

    • C. M. G. Lattes, H. Muirhead, G. P. S. Occhialini & C. F. Powell (1947). Processes Involving Charged Mesons. Nature 159, 694.
    • C. M. G. Lattes, G. P. S. Occhialini & C. F. Powell (1947). Observations on the Tracks of Slow Mesons in Photographic Emulsions. Nature 160, 453.
    • G. D. Rochester & C. C. Butler (1947). Evidence for the Existence of New Unstable Elementary Particles. Nature 160, 855.
  11. 1955

    antipróton

    O Bevatron, em Berkeley, foi projetado com energia suficiente para criar pares de próton e antipróton. Chamberlain e Segrè encontram o antipróton e mostram que a antimatéria não se restringe ao elétron.

    como se mediu

    Para criar um par de próton e antipróton numa colisão contra um próton em repouso, o feixe precisa de cerca de 5.6 GeV. O Bevatron acelerava prótons até 6.2 GeV. Os prótons atingiam um alvo de cobre, e ímãs selecionavam as partículas negativas com um mesmo momento. Com o momento fixo, o tempo de voo entre dois cintiladores separados por 12 m dava a massa. Os píons negativos, muito mais numerosos, chegavam antes. Cerca de 60 partículas chegaram com o atraso correspondente à massa do próton.

    • O. Chamberlain, E. Segrè, C. Wiegand & T. Ypsilantis (1955). Observation of Antiprotons. Physical Review 100, 947.
  12. 1956

    neutrino do elétron

    Cowan e Reines detectam antineutrinos vindos do reator nuclear de Savannah River, nos Estados Unidos. A partícula de Pauli foi observada 26 anos depois da carta em que ele a propôs.

    como se mediu

    O reator de Savannah River emitia um fluxo enorme de antineutrinos. Cowan e Reines usaram tanques com água e cloreto de cádmio entre cintiladores líquidos. Um antineutrino que atinge um próton da água produz um pósitron e um nêutron. O pósitron se aniquila logo e emite dois raios gama. O nêutron é capturado pelo cádmio alguns microssegundos depois e emite outros raios gama. Exigir esses dois sinais em sequência eliminava quase todo o ruído. A taxa medida, de cerca de três eventos por hora, caía quando o reator era desligado.

    • C. L. Cowan, F. Reines, F. B. Harrison, H. W. Kruse & A. D. McGuire (1956). Detection of the Free Neutrino. A Confirmation. Science 124, 103.
  13. 1962

    neutrino do múon

    Lederman, Schwartz e Steinberger produzem neutrinos em Brookhaven a partir do decaimento de píons. Ao interagir, eles geram múons e nunca elétrons. Existe mais de um tipo de neutrino.

    Jack Steinberger, Melvin Schwartz e Leon Lederman
    Steinberger, Schwartz e Lederman
    como se mediu

    No AGS de Brookhaven, prótons de 15 GeV atingiam um alvo de berílio e produziam píons, que decaem em múon e neutrino. Uma blindagem de 13.5 m de aço, feita de chapas de um navio de guerra desmontado, absorvia tudo menos os neutrinos. Do outro lado, uma câmara de faíscas com 10 toneladas de alumínio registrava as raras interações. A equipe contou algumas dezenas de rastros longos e retos, típicos de múons, e apenas uns poucos candidatos a elétron, compatíveis com o ruído. Se houvesse um único tipo de neutrino, múons e elétrons deveriam aparecer em número parecido.

    • G. Danby, J.-M. Gaillard, K. Goulianos, L. M. Lederman, N. Mistry, M. Schwartz & J. Steinberger (1962). Observation of High-Energy Neutrino Reactions and the Existence of Two Kinds of Neutrinos. Physical Review Letters 9, 36.
  14. 1964

    quarks e bóson de Higgs

    Gell-Mann e Zweig propõem que prótons, nêutrons e mésons sejam formados por quarks. No mesmo ano, Higgs, Englert, Brout e outros propõem o mecanismo que dá massa às partículas e prevê um novo bóson.

    Esquema do próton e do nêutron, cada um formado por três quarks
    Quarks no próton e no nêutron
    o argumento

    Nos anos 1950 e 1960 os aceleradores revelaram dezenas de hádrons. Gell-Mann e Ne’eman notaram que eles se organizavam em famílias de 8 e de 10 partículas, segundo uma simetria chamada SU(3). Em 1964, Gell-Mann e Zweig mostraram que esses padrões aparecem naturalmente se os hádrons forem formados por três tipos de constituintes, com cargas de 2/3 e −1/3 da carga do próton. No mesmo ano, três grupos mostraram como bósons mediadores de uma teoria desse tipo podem adquirir massa pela interação com um campo que preenche todo o espaço. Higgs observou que esse campo implica a existência de uma partícula nova.

    • M. Gell-Mann (1964). A Schematic Model of Baryons and Mesons. Physics Letters 8, 214.
    • G. Zweig (1964). An SU(3) Model for Strong Interaction Symmetry and its Breaking. CERN-TH-401.
    • F. Englert & R. Brout (1964). Physical Review Letters 13, 321.
    • P. W. Higgs (1964). Broken Symmetries and the Masses of Gauge Bosons. Physical Review Letters 13, 508.
    • G. S. Guralnik, C. R. Hagen & T. W. B. Kibble (1964). Physical Review Letters 13, 585.
  15. 1964

    ômega menos

    Gell-Mann tinha previsto em 1962 a existência e a massa da partícula Ω⁻, a partir da simetria que organiza os hádrons. Uma câmara de bolhas em Brookhaven a registra com a massa prevista.

    como se mediu

    Na família de 10 bárions, as massas crescem em degraus de cerca de 150 MeV a cada quark estranho a mais, das partículas Δ, com 1232 MeV, às Σ* e Ξ*. A décima posição estava vazia. Gell-Mann previu que ela seria ocupada por uma partícula com carga negativa e massa perto de 1680 MeV, que só poderia decair pela interação fraca e, por isso, viveria o suficiente para deixar um rastro. Em Brookhaven, um feixe de káons negativos atravessou a câmara de bolhas de hidrogênio líquido de 80 polegadas. Entre dezenas de milhares de fotografias, um evento mostrou a cadeia de decaimentos esperada, com massa de 1686 ± 12 MeV.

    • V. E. Barnes et al. (1964). Observation of a Hyperon with Strangeness Minus Three. Physical Review Letters 12, 204.
  16. 1969

    quarks dentro do próton

    No SLAC, elétrons de alta energia espalhados por prótons revelam pontos de carga lá dentro. O experimento repetiu, dentro do próton, a lógica de Rutherford dentro do átomo.

    Vista aérea do acelerador linear do SLAC, com 3 km de extensão
    O acelerador linear do SLAC
    como se mediu

    O acelerador linear do SLAC, com 3 km de comprimento, produzia elétrons de até 20 GeV. A equipe do MIT e do SLAC mediu quantos elétrons eram espalhados em grandes ângulos com grande perda de energia. Se a carga do próton estivesse distribuída de modo uniforme pelo seu volume, esses espalhamentos seriam raros. Eles eram frequentes, e as funções de estrutura medidas quase não dependiam da energia transferida, como Bjorken tinha previsto para constituintes pontuais. Feynman chamou esses constituintes de pártons. Medidas com feixes de neutrinos no CERN mostraram depois que eles tinham as cargas fracionárias dos quarks.

    • E. D. Bloom et al. (1969). High-Energy Inelastic e–p Scattering at 6° and 10°. Physical Review Letters 23, 930.
    • M. Breidenbach et al. (1969). Observed Behavior of Highly Inelastic Electron-Proton Scattering. Physical Review Letters 23, 935.
  17. 1974

    charm

    Richter, no SLAC, e Ting, em Brookhaven, descobrem a mesma partícula quase ao mesmo tempo, e por isso ela tem dois nomes, J/ψ. É formada por um quarto quark, o charm, e seu antiquark.

    como se mediu

    A equipe de Ting bombardeava berílio com prótons e media pares de elétron e pósitron, procurando picos na massa do par. Encontrou um pico estreito em 3.1 GeV. No anel SPEAR do SLAC, a equipe de Richter colidia elétrons e pósitrons variando a energia em pequenos passos. Em 3.1 GeV a taxa de produção de hádrons subiu cerca de cem vezes, numa faixa de energia muito estreita. Uma partícula tão pesada e tão estável só se explicava com um quarto quark, cujo par com o antiquark não decai facilmente em quarks mais leves. O episódio ficou conhecido como a Revolução de Novembro.

    • J. J. Aubert et al. (1974). Experimental Observation of a Heavy Particle J. Physical Review Letters 33, 1404.
    • J.-E. Augustin et al. (1974). Discovery of a Narrow Resonance in e⁺e⁻ Annihilation. Physical Review Letters 33, 1406.
  18. 1975

    tau

    Martin Perl, no SLAC, encontra um terceiro lépton carregado, com cerca de 3500 vezes a massa do elétron. Foi o primeiro sinal de uma terceira geração de partículas.

    Tabela das partículas do Modelo Padrão, com quarks, léptons, bósons de calibre e o bóson de Higgs
    As partículas do Modelo Padrão
    como se mediu

    A equipe de Perl procurava, no SPEAR, colisões de elétrons e pósitrons que produzissem exatamente um elétron e um múon de cargas opostas e nada mais visível. Nenhum processo conhecido fazia isso. Eles encontraram 24 eventos assim, com energia e momento faltando, o que indica que pelo menos duas partículas invisíveis tinham escapado. A explicação era a produção de um par de léptons novos e pesados, cada um decaindo num lépton mais leve e em neutrinos. A massa medida depois foi de 1.78 GeV.

    • M. L. Perl et al. (1975). Evidence for Anomalous Lepton Production in e⁺e⁻ Annihilation. Physical Review Letters 35, 1489.
  19. 1977

    bottom

    A equipe de Lederman, no Fermilab, encontra a partícula ϒ, formada por um quinto quark, o bottom, e seu antiquark. Se a terceira geração seguisse o padrão das outras duas, deveria haver um sexto quark.

    como se mediu

    A equipe de Lederman lançou prótons de 400 GeV do Fermilab contra alvos de cobre e de platina e mediu pares de múons de cargas opostas. No espectro de massa desses pares apareceu um excesso em torno de 9.5 GeV, depois resolvido em mais de um estado. Pela mesma lógica do J/ψ, um estado ligado de quark e antiquark tão pesado exigia um quinto quark, com carga −1/3.

    • S. W. Herb et al. (1977). Observation of a Dimuon Resonance at 9.5 GeV in 400-GeV Proton-Nucleus Collisions. Physical Review Letters 39, 252.
  20. 1979

    glúon

    No acelerador PETRA, em Hamburgo, colisões de elétrons e pósitrons produzem eventos com três jatos de partículas. O terceiro jato vem de um glúon, a partícula que mantém os quarks unidos.

    Ilustração dos bósons mediadores das forças
    Os bósons que transmitem as forças
    como se mediu

    Em colisões de elétrons e pósitrons, um par de quark e antiquark aparece no detector como dois jatos de hádrons em sentidos opostos. Se um dos quarks emitir um glúon de alta energia, surge um terceiro jato, e os três ficam num mesmo plano. Os experimentos TASSO, MARK-J, PLUTO e JADE, no PETRA, com energias de cerca de 30 GeV, encontraram esses eventos de três jatos na proporção prevista pela Cromodinâmica Quântica.

    • R. Brandelik et al. (TASSO) (1979). Evidence for Planar Events in e⁺e⁻ Annihilation at High Energies. Physics Letters B 86, 243.
  21. 1983

    W e Z

    Os experimentos UA1 e UA2, no CERN, encontram os bósons da força fraca com as massas previstas pela teoria eletrofraca, 80 e 91 GeV/c². Rubbia e van der Meer recebem o Nobel no ano seguinte.

    como se mediu

    Para produzir partículas com quase 100 vezes a massa do próton, o CERN transformou o SPS num colisor de prótons e antiprótons, com 540 GeV no centro de massa. Isso só foi possível porque van der Meer desenvolveu o resfriamento estocástico, que concentra os antiprótons num feixe denso. O W é identificado quando decai num elétron de grande momento transversal e num neutrino, que se revela pela energia que falta no balanço. O Z aparece como um par de elétron e pósitron, ou de múons, com massa total de 91 GeV. Os primeiros artigos tinham poucos eventos, seis W no UA1 e quatro no UA2.

    • G. Arnison et al. (UA1) (1983). Experimental Observation of Isolated Large Transverse Energy Electrons with Associated Missing Energy at √s = 540 GeV. Physics Letters B 122, 103.
    • M. Banner et al. (UA2) (1983). Physics Letters B 122, 476.
    • G. Arnison et al. (UA1) (1983). Experimental Observation of Lepton Pairs of Invariant Mass around 95 GeV/c² at the CERN SPS Collider. Physics Letters B 126, 398.
  22. 1987

    neutrinos da SN 1987A

    Uma estrela explode na Grande Nuvem de Magalhães. Detectores no Japão, nos Estados Unidos e na União Soviética registram 24 neutrinos horas antes da luz. Foram os primeiros neutrinos vindos de fora do Sistema Solar.

    Gráfico do número de fotomultiplicadoras acionadas em função do tempo no Kamiokande II, com o pulso de neutrinos da SN 1987A
    Os neutrinos da SN 1987A no Kamiokande II (Hirata et al. 1987)
    como se mediu

    Kamiokande II, no Japão, e IMB, nos Estados Unidos, eram tanques com milhares de toneladas de água rodeados de fotomultiplicadoras, construídos para procurar o decaimento do próton. Um antineutrino que atinge um próton da água produz um pósitron rápido, que emite luz Cherenkov. Em 23 de fevereiro de 1987, o Kamiokande II registrou 11 eventos em cerca de 13 segundos, o IMB registrou 8 e o detector de Baksan, na União Soviética, registrou 5. A energia total estimada, da ordem de 10⁴⁶ J, confirmou que quase toda a energia do colapso do núcleo da estrela sai na forma de neutrinos.

    • K. Hirata et al. (1987). Observation of a Neutrino Burst from the Supernova SN1987A. Physical Review Letters 58, 1490.
    • R. M. Bionta et al. (1987). Observation of a Neutrino Burst in Coincidence with Supernova 1987A in the Large Magellanic Cloud. Physical Review Letters 58, 1494.
  23. 1995

    top

    CDF e DØ, no Tevatron do Fermilab, encontram o sexto quark. Com cerca de 173 GeV/c², quase a massa de um átomo de tungstênio inteiro, é a partícula elementar mais pesada que conhecemos.

    como se mediu

    No Tevatron, prótons e antiprótons colidiam com 1.8 TeV. Um par de quark top e antitop decai quase sempre em dois bósons W e dois quarks bottom. Os experimentos procuraram eventos com um lépton de grande energia, energia faltante e vários jatos, alguns deles identificados como vindos de quarks bottom pelo pequeno deslocamento do ponto de decaimento. Depois de reunir algumas dezenas de candidatos acima do ruído esperado, CDF e DØ anunciaram a descoberta no mesmo dia.

    • F. Abe et al. (CDF) (1995). Observation of Top Quark Production in p̄p Collisions. Physical Review Letters 74, 2626.
    • S. Abachi et al. (DØ) (1995). Observation of the Top Quark. Physical Review Letters 74, 2632.
  24. 1998

    neutrinos têm massa

    O Super-Kamiokande registra menos neutrinos do múon vindos de baixo, depois de atravessar a Terra, do que vindos de cima. Eles mudam de tipo no caminho, e isso só é possível se tiverem massa.

    Interior do detector de neutrinos japonês, com as paredes cobertas de fotomultiplicadoras
    Detector de neutrinos no Japão
    como se mediu

    Os raios cósmicos que atingem a atmosfera produzem neutrinos do elétron e do múon em proporção conhecida, vindos de todas as direções. Os que chegam de cima percorreram cerca de 15 km, e os que chegam de baixo atravessaram a Terra, cerca de 13000 km. O Super-Kamiokande, com 50 mil toneladas de água, distingue pela forma do anel de luz Cherenkov se o neutrino gerou um múon ou um elétron. Os eventos com elétron vinham por igual de cima e de baixo. Os eventos com múon vindos de baixo eram cerca de metade dos esperados. A dependência com a distância percorrida indicava oscilação, e a oscilação exige que os neutrinos tenham massas diferentes, logo que pelo menos um deles tenha massa.

    • Y. Fukuda et al. (1998). Evidence for Oscillation of Atmospheric Neutrinos. Physical Review Letters 81, 1562.
  25. 2000

    neutrino do tau

    O experimento DONUT, no Fermilab, observa diretamente o neutrino do tau. Com ele, os 12 férmions do Modelo Padrão, 6 quarks e 6 léptons, estavam todos observados. Faltava um bóson.

    como se mediu

    Prótons de 800 GeV do Tevatron atingiam um bloco de tungstênio e produziam mésons com quark charm, alguns dos quais decaem em tau e neutrino do tau. Blindagens e ímãs removiam as partículas carregadas. Os neutrinos atravessavam placas de ferro intercaladas com emulsão nuclear. Quando um neutrino do tau interagia, nascia um tau, que percorria cerca de 1 mm antes de decair. Na emulsão isso aparece como um rastro que dobra bruscamente logo depois de começar. A equipe identificou 4 eventos assim entre cerca de 200 interações de neutrinos analisadas.

    • K. Kodama et al. (DONUT) (2001). Observation of Tau Neutrino Interactions. Physics Letters B 504, 218.
  26. 2012

    bóson de Higgs

    ATLAS e CMS, no LHC, anunciam em 4 de julho uma partícula de 125 GeV/c² com as propriedades do bóson de Higgs. Foram 48 anos entre a previsão e a detecção.

    Simulação de uma colisão no LHC com produção de um bóson de Higgs
    Simulação de um evento com bóson de Higgs
    como se mediu

    O bóson de Higgs vive cerca de 10⁻²² s e só é visto pelos produtos do seu decaimento. Os dois canais mais limpos foram o decaimento em dois fótons e o decaimento em dois bósons Z, que leva a quatro léptons. Nos dois canais apareceu um pequeno excesso de eventos com massa total perto de 125 GeV sobre um fundo muito maior. Com os dados de 2011 e 2012, cada experimento chegou a uma significância de cerca de 5 desvios-padrão, o que corresponde a uma chance de cerca de uma em 3 milhões de que uma flutuação do fundo produzisse o sinal.

    • ATLAS Collaboration (2012). Observation of a New Particle in the Search for the Standard Model Higgs Boson with the ATLAS Detector at the LHC. Physics Letters B 716, 1.
    • CMS Collaboration (2012). Observation of a New Boson at a Mass of 125 GeV with the CMS Experiment at the LHC. Physics Letters B 716, 30.
  27. hoje

    o que ainda falta

    Nenhuma dessas partículas explica a Matéria Escura. Também não sabemos por que o Universo tem mais matéria que antimatéria, nem qual é a massa de cada neutrino.

Em cada descoberta, o botão como se mediu explica o experimento, com os números que decidiram a questão e a referência do artigo original. Nas previsões teóricas, o mesmo botão traz o argumento que levou à previsão. Os filtros separam as famílias de partículas. Escolhendo neutrinos, por exemplo, ficam seis eventos que contam a história dessa partícula, da carta de Pauli em 1930 à observação do neutrino do tau em 2000.

A régua acima da linha mostra os mesmos eventos na escala real do tempo. Na linha principal eles aparecem igualmente espaçados, para que todos possam ser lidos, mas a régua deixa ver que as descobertas se concentraram em alguns períodos, como os anos 1930 e a década de 1970.

Cada evento tem um endereço próprio. Clicando no ano, o link daquele ponto da linha do tempo aparece na barra do navegador e pode ser copiado para uma aula ou um exercício.

Referências

  • D. Griffiths, Introduction to Elementary Particles, 2ª ed. Wiley-VCH, 2008.
  • A. Pais, Inward Bound. Of Matter and Forces in the Physical World. Oxford University Press, 1986.

As referências de cada evento estão no próprio evento.

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