Em 1922, ano em que morreu, Jacobus Kapteyn publicou o resultado de décadas de contagens de estrelas. A Via Láctea aparecia como um disco achatado, com a densidade de estrelas diminuindo em todas as direções a partir de um centro a apenas 2 mil anos-luz do Sol. William Herschel tinha chegado a um quadro parecido em 1785, também contando estrelas. Quase quatro séculos depois de Copérnico, o Sol continuava perto do centro de tudo o que conhecíamos.
Entretanto, Harlow Shapley tinha chegado a uma conclusão contrária em 1918 usando uma técnica diferente de Herschel e Kapteyn. Usou estrelas variáveis para medir a distância de aglomerados globulares e viu que eles se distribuem em torno de um ponto na direção de Sagitário, a dezenas de milhares de anos-luz.
A discordância aconteceu porque Herschel e Kapteyn não consideraram a absorção da luz no espaço. Kapteyn desconfiava dela, tanto é que em 1909 disse que ela deixaria as estrelas distantes mais vermelhas. Porém, Shapley mostrou em 1916 que, com a absorção estimada por Kapteyn, as estrelas dos aglomerados globulares deveriam estar mais avermelhadas do que o medido. Kapteyn aceitou o argumento, mas nenhum dos dois cogitou que a poeira pudesse estar concentrada no plano da Galáxia, longe da maior parte dos aglomerados.
Apenas em 1930 Robert Trumpler, do Observatório Lick, conseguiu entender a origem do problema. Ele estimou a distância de 100 aglomerados abertos, que ficam no plano da Galáxia, por dois métodos. Um usava o tamanho aparente, supondo diâmetros semelhantes, e o outro o brilho das estrelas. Num espaço transparente os dois dariam o mesmo resultado. No entanto, as distâncias calculadas pelo brilho saíram sistematicamente maiores, e a diferença crescia com a distância. Trumpler concluiu que uma poeira fina, numa camada estreita ao longo do plano, absorvia a luz. Pelas contas dele, uma estrela perdia quase metade do brilho a cada 3 mil anos-luz.
Trumpler resolveu o conflito. Como a poeira enfraquece a luz em todas as direções ao longo do plano, as estrelas parecem rarear de modo semelhante em volta de quem observa, e por isso o observador se acha no centro. Com a correção, o sistema de Kapteyn cresceu cerca de 3 vezes e o de Shapley encolheu pela metade, em parte pela poeira e em parte por um erro na calibração das variáveis.
Costumamos lembrar desse episódio só pela conclusão de que não estamos no centro da Galáxia. Mas considero a outra descoberta tão importante quanto essa. Até 1930 o espaço entre as estrelas era tratado como transparente nas medidas de distância. O incômodo das contagens de estrelas passou a ser objeto de estudo, e dali cresceu uma área inteira da Astrofísica, a do meio interestelar. As duas descobertas não poderiam ter sido feitas uma sem a outra.
Herschel e Kapteyn estavam no centro do que conseguiam ver, e o erro deles foi tomar o limite da própria visão pelo limite do sistema. Kapteyn também supunha que a mistura de estrelas era a mesma em toda parte. Corrigida a poeira, as contagens dele e os aglomerados de Shapley passaram a descrever partes diferentes da Galáxia, um disco fino com o Sol e a poeira e um halo muito maior. Foi a primeira evidência de que a Via Láctea tem uma anatomia, e não é um mero aglomerado de estrelas.
Prof. Alexandre Zabot
Referências
Shapley, H. (1918). Studies based on the colors and magnitudes in stellar clusters. VII. The distances, distribution in space, and dimensions of 69 globular clusters. ApJ, 48, 154. ADS
Trumpler, R. J. (1930). Preliminary results on the distances, dimensions and space distribution of open star clusters. Lick Observatory Bulletin, 14, 154. ADS
van der Kruit, P. C. (2014). Lessons from the Milky Way: the Kapteyn Universe. arXiv