Na última terça-feira a Academia Real de Ciências da Suécia concedeu o Nobel de Física de 2026 a Francis Halzen, belga de 82 anos, por suas contribuições decisivas ao IceCube e pela descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica. O IceCube é um quilômetro cúbico de gelo no Polo Sul, atravessado por 86 cabos com 5160 sensores de luz, concluído em 2011. Halzen ganhou o prêmio sozinho, o que não acontecia na Física desde 1992.
Confesso que fiquei surpreso. Já tinha visto que ele aparecia como favorito em várias listas, mas eu não apostava nele. É o quinto Nobel para neutrinos, depois de 1988, 1995, 2002 e 2015, e ninguém duvidava de que os de alta energia existissem. O resultado do IceCube é mais uma confirmação do que uma descoberta. Fui pesquisar e vi que eu estava por fora. Os raios X renderam cinco prêmios entre 1901 e 1924. Reines ganhou em 1995 por detectar uma partícula prevista desde 1930, e o LIGO, em 2017, por Ondas Gravitacionais que também eram consideradas quase uma certeza.
Para entender por que isso se repete é preciso entender como o prêmio Nobel funciona. A indicação é apenas por convite. Em setembro o comitê envia cerca de 3 mil cartas, com prazo até 31 de janeiro. Oito físicos filtram os nomes, pedem pareceres sigilosos e levam uma proposta à Academia, que vota no dia do anúncio. Os papéis ficam trancados por 50 anos, de modo que só a partir de 2076 saberemos o que se discutiu sobre Halzen. Há várias regras, mas três são muito importantes. O prêmio é dividido entre três pessoas, no máximo. Não há premiação póstuma, precisa estar vivo. E só concorre quem foi indicado por escrito para aquele ano.
Toda premiação tem seus problemas, não é diferente com o Nobel. Primeiro, ele atrai gente para as áreas premiadas. Um estudo de 2021 mostrou que temas premiados ganham 40% mais artigos na década seguinte. Ele também se concentra em algumas áreas. Entre 1995 e 2017, cinco de 114 áreas ficaram com mais da metade dos prêmios de ciências, e a Física de partículas liderou. Pode ser que essas áreas tenham mesmo rendido mais, e pode ser que o prestígio de um prêmio prepare o seguinte. E há a linhagem, da qual quase ninguém fala. Dos 736 laureados em ciências e economia até 2023, 702 pertencem à mesma árvore acadêmica, de orientador a orientando. Não é conspiração. Todo laureado ganha o direito vitalício de indicar, e os bons laboratórios atraem os bons alunos.
Nada disso me faz desprezar o Nobel. Reconhecer é necessário e é impossível dar o mérito devido a todo mundo com um prêmio só. Limitar nomes significa colocar alguém pra fora. Se premiarmos todos, ninguém é realmente destacado. O que me agrada é ver que o prêmio a um acaba sendo o prêmio de muitos. O próprio Halzen atribuiu o dele aos corajosos que toparam o projeto quando nenhum físico respeitável toparia. Além disso, as omissões também entram para a história. A Relatividade nunca rendeu um Nobel a Einstein. E Cesar Lattes não poderia ter dividido o prêmio de 1950, porque ninguém o indicou naquele ano. Mesmo assim é mais lembrado entre nós do que Cecil Powell, o premiado. O Nobel é um bom mapa da Física, desde que se saiba quem o desenhou.
Prof. Alexandre Zabot
Referências
Silva Neto, C. P. & Tavares, H. (2024). Cesar Lattes e o Prêmio Nobel: a Lógica do Prestígio Científico no Século XX. Revista Brasileira de Ensino de Física, 46, e20240188. DOI
Friedman, R. M. (2022). The 100th Anniversary of Einstein’s Nobel Prize: Facts and Fiction. Annalen der Physik, 2022, 2200305. DOI
Nobel Prize Outreach (2026). All Nobel Prizes in Physics. NobelPrize.org. Nobel