Poucos objetos provocaram tanta discussão em tão pouco tempo. No último dia 16 a Nature Astronomy publicou um número temático inteiro sobre eles, aberto por um editorial de título provocador, algo como “Pontinhos vermelhos, o quê?”. Num congresso em Aspen, em abril, o debate empacou já no primeiro tópico. Estou falando dos little red dots, os pontinhos vermelhos que o Telescópio James Webb encontra em quase toda imagem profunda do Universo jovem.
A primeira leitura veio em fevereiro de 2023, quando Ivo Labbé e colaboradores interpretaram seis deles como galáxias enormes, uma talvez com cem bilhões de massas solares, apenas 600 milhões de anos depois do Big Bang. Não haveria tempo para crescerem tanto. Foi o espectro que mudou a história. Ainda em 2023, a equipe de Jorryt Matthee, com os levantamentos EIGER e FRESCO, batizou a classe e encontrou linhas de hidrogênio alargadas, sinal de gás girando a milhares de quilômetros por segundo em torno de uma massa compacta.
Não conhecemos outro motor capaz disso além de um Buraco Negro (BN). Só com estrelas seriam necessárias massas incompatíveis com a energia medida no infravermelho, e em maio deste ano saiu na Nature a primeira medida dinâmica direta da massa de um desses BNs. O problema é o que falta. Um BN engolindo gás costuma brilhar em raios X, variar de brilho em poucos meses e aquecer a poeira ao redor. Os pontinhos vermelhos fazem pouco ou nada disso. Alguma coisa está na frente, escondendo o motor.
Com o que já sabemos, há duas maneiras de esconder um BN. A primeira é a dos núcleos ativos de galáxias, os AGNs, em que nuvens de gás e poeira cruzam nossa linha de visada e avermelham a luz. Funciona para objetos modestos, mas nos mais brilhantes não se encontra poeira suficiente para esse papel. A segunda é mais exótica. Imagine o BN no centro de um envelope de hidrogênio tão denso que se comporta como a atmosfera de uma estrela, com superfície a cerca de 5.000 K. Estima-se que o BN poderia ter massa de até dez milhões de massas solares, o que corresponde a um Raio de Schwarzschild até 40 raios solares, enquanto a nebulosa pode se estender até centenas de unidades astronômicas. O modelo se chama “Estrela de Buraco Negro” e ganhou força de março de 2025 para cá.
A pista que considero mais importante hoje é a linha do tempo. Os pontinhos vermelhos são abundantes no primeiro bilhão de anos e ficam de dez a cem vezes mais raros quando o Universo chega a pouco mais de 3 bilhões de anos. Entretanto, em junho descobrimos dois deles que brilham em raios X, rádio e infravermelho, possivelmente a caminho de virar quasares!
A comunidade vai se convencendo aos poucos que “Pontinho Vermelho” pode ser uma classificação que reúne objetos diferentes. Nos casos extremos seriam envelopes quase estelares, em outros, núcleos ativos comuns atrás de nuvens, e muitos estariam no meio do caminho entre um estado e outro. A Astronomia já passou por isso. As nebulosas do catálogo de Messier agrupavam galáxias, aglomerados e nuvens de gás sob a mesma aparência difusa, e só o espectro de Huggins, em 1864, e depois as distâncias de Hubble começaram a separá-las. Suspeito que daqui a alguns anos falaremos dos pontinhos vermelhos como hoje falamos das nebulosas, um nome antigo para várias coisas.
Referências
Matthee, J. et al. (2024). Little Red Dots: An Abundant Population of Faint Active Galactic Nuclei at z ~ 5 Revealed by the EIGER and FRESCO JWST Surveys. ApJ 963, 129. ADS
Inayoshi, K. & Ho, L. C. (2026). A critical evaluation of the physical nature of the little red dots. Nature Astronomy 10, 1261. Nature Astronomy
Naidu, R. P. et al. (2026). A gas-enshrouded and gas-reddened black hole at cosmic dawn. Nature 656, 329. Nature