Neste momento duas naves caríssimas estão a caminho para procurar vida em luas congeladas, a mais de meio bilhão de quilômetros do Sol. Parece um contrassenso. Aprendemos que a vida floresce onde a estrela aquece a água a ponto de mantê-la líquida na superfície, a chamada Zona Habitável. A Terra está nela e Marte perto da borda. Mas não é tão simples. Encélado, lua de Saturno, orbita a quase dez vezes a distância Terra-Sol, e Europa, lua de Júpiter, a pouco mais de cinco. As duas estão congeladas por fora, muito além da Zona Habitável, e ainda assim guardam oceanos globais de água líquida sob a casca de gelo.

O que as mantém líquidas internamente não é o Sol, é a maré. A gravidade do planeta gigante espreme e relaxa a lua a cada volta, aquecendo o interior. Ao contrário da intuição, habitabilidade não pede luz de estrela, pede apenas água líquida, energia e os elementos químicos certos.

Encélado e Europa não são gêmeas. A começar pela distância, com Júpiter bem mais próximo que Saturno. O oceano de Europa é imenso, com mais água que todos os mares da Terra somados, provavelmente em contato direto com um manto rochoso. E há um ponto que considero decisivo: a superfície de Europa é jovem, refeita nas últimas dezenas de milhões de anos, e troca material com o oceano. A radiação de Júpiter fabrica oxidantes ali, como oxigênio e peróxido, que descem e criam o desequilíbrio químico de que a vida pode se alimentar. Encélado recebe pouca radiação e quase não mistura superfície e oceano.

A sonda Cassini nos ensinou muito sobre Encélado ao atravessar suas plumas e detectar água, hidrogênio de origem hidrotermal, moléculas orgânicas e, em 2023, os fosfatos que fecharam a lista dos seis elementos essenciais à vida. De Europa temos quase nada de perto, e é essa lacuna que a Europa Clipper, lançada em 2024 para chegar em 2030, vai preencher em quase cinquenta sobrevoos. O objetivo é entender o que aconteceu na convivência de água e rocha por bilhões de anos. E note, a Clipper irá apenas avaliar habitabilidade, não vai caçar vida. Pousar para procurar vida, como sonha o conceito Orbilander, é mais difícil e mais caro, precisamos esperar.

Se vamos primeiro à Europa, não é por ser o alvo mais promissor. Encélado, cuja pluma já nos revelou dados do oceano, disputa de igual para igual. Começamos com Europa porque está na fila há mais tempo, é prioridade dos relatórios que guiam a exploração planetária desde os anos 2000. Por anos o orçamento reservado a ela saltou de dezenas para mais de duzentos milhões de dólares. Uma missão voa quando está madura, não quando a ciência esquenta. Neste caso, as datas não coincidiram!

Mas penso que escolher entre os dois, no fim, é um falso dilema. Temos ambos, e o que falta é dinheiro e naves. A pergunta por trás de tudo, se existe vida fora da Terra, é grande demais para nós. Respondê-la, num oceano de Saturno ou de Júpiter, vale cada centavo desses projetos. Garanto que vale muito mais do que pagamos.

Prof. Alexandre Zabot

Referências

  • Waite, J. H. et al. (2017). Cassini finds molecular hydrogen in the Enceladus plume: evidence for hydrothermal processes. Science, 356, 155. Science
  • Postberg, F. et al. (2023). Detection of phosphates originating from Enceladus’s ocean. Nature, 618, 489. Nature
  • Khawaja, N. et al. (2025). Detection of organic compounds in freshly ejected ice grains from Enceladus’s ocean. Nature Astronomy, 9, 1662. Nature Astronomy