Em 10 de setembro de 2025 a NASA anunciou, num artigo na Nature, que o rover Perseverance havia encontrado uma “bioassinatura potencial” numa rocha marciana chamada Cheyava Falls. No dia seguinte, boa parte da imprensa repercutiu a notícia como “o sinal mais claro de vida em Marte”. As duas frases parecem dizer a mesma coisa, mas não dizem. O que me interessa aqui é explicar por quê.

A rocha, perfurada em julho de 2024 e guardada na amostra Sapphire Canyon, tem carbono orgânico e pequenos minerais de ferro dispostos em manchas, que a equipe apelidou de “manchas de leopardo”. Na Terra, arranjos assim costumam surgir onde existe atividade microbiana. O time de Joel Hurowitz mostrou que as vias abióticas (sem participação de vida) para formá-los, como calor intenso e acidez, eram pouco prováveis naquele ambiente. Mas repare, pouco provável não é impossível!

Em 2021, um grupo liderado por James Green propôs uma régua para medir afirmações sobre vida fora da Terra. Batizaram de escala CoLD, do inglês “Confidence of Life Detection”, algo como confiança na detecção de vida. A ideia nasceu para evitar um problema comum: quase todo anúncio de vida fora da Terra correu à frente da evidência que o sustentava. São sete degraus. O primeiro é apenas flagrar um sinal que poderia ter origem biológica. Os seguintes exigem descartar contaminação, provar que o ambiente era habitável, reencontrar a assinatura com outro instrumento e, só no topo, confirmar tudo de forma independente.

Sapphire Canyon está nos degraus mais baixos dessa régua, e por isso as manchetes foram precipitadas. Nem a NASA nem os autores estabeleceram um número na escala CoLD. Preferiram “bioassinatura potencial”, que é o modo técnico de dizer que se achou um sinal e ainda não se eliminaram as explicações sem vida. No mesmo dia, o comunicado da própria agência falava em “o mais perto que já chegamos” de encontrar vida no planeta. A cautela do artigo e a euforia da nota destoam porque se referem a degraus diferentes.

Não pense que é implicância minha com a imprensa. Poucas semanas atrás saiu na Nature Astronomy uma sondagem que perguntou a centenas de astrobiólogos se vida havia provavelmente sido encontrada. No caso marciano, apenas 15% concordaram. Meses antes, uma alegação parecida sobre o exoplaneta K2-18b tinha convencido menos ainda, só 6,6% deles. A comunidade inteira estava nos degraus baixos, bem longe da manchete.

Subir ao degrau seguinte é possível, e sabemos exatamente como. Bastaria trazer a amostra para a Terra e medir os isótopos de ferro, enxofre e carbono num laboratório de verdade. O problema é que a missão encarregada desse retorno foi cancelada. Sem ela, as primeiras amostras marcianas num laboratório terrestre virão, se vierem, só na próxima década. A régua continua ali, o próximo degrau está desenhado, mas não temos como pisá-lo agora. Confesso que é a parte que mais me incomoda, uma rocha talvez decisiva para a questão da vida em Marte, à espera de um resgate que por ora não virá.

Fica a lição de prudência da escala CoLD contra o imediatismo da notícia. Uma descoberta não é um grito de Eureka!, é uma escala vencida degrau a degrau. A ciência amadureceu ao ponto de construir a própria régua para não se enganar como já se enganou no passado. Ler essa régua com honestidade, em Marte, nos exoplanetas ou nos mundos oceânicos, é o que separa uma notícia de uma certeza.

Prof. Alexandre Zabot


Referências

  • Green, J. et al. (2021). Call for a framework for reporting evidence for life beyond Earth. Nature, 598, 575. arXiv

  • Hurowitz, J. et al. (2025). Redox-driven mineral and organic associations in Jezero Crater, Mars. Nature. Nature

  • Vickers, P. et al. (2026). Comparing astrobiologists’ confidence in extraterrestrial life claims for K2-18 b and Cheyava Falls. Nature Astronomy. Nature