A ciência avança: as lições do passado podem até ser úteis, mas os dados antigos são ultrapassados porque nossos equipamentos modernos os tornaram obsoletos. Esta é a visão de muitos, e parece fazer sentido. No entanto, está errada por um motivo bem simples: ao analisar séries temporais, dados antigos podem fazer toda a diferença. Na Astrofísica isso é bem mais comum do que parece.

Há muito tempo se sabe que algumas das 1022 estrelas do Almagesto apresentam uma magnitude (medida de brilho) diferente da atual. θ-Eridani é a recordista: 2,7 mag mais brilhante no passado do que hoje! É muita coisa. Mesmo Piazzi tendo-a caracterizado como sistema binário em 1814 (hoje sabemos que é triplo!) não resolve o problema.

Recentemente Waisberg & Katz utilizaram medidas de brilho do sistema triplo θ-Eridani para propor que ele passou por uma fase de envelope comum. Segundo eles, há três medidas antigas independentes: Hiparco ~130 a.C, Ptolomeu no Almagesto em 137 d.C e al-Sufi (964 d.C), todas obtidas a olho nu!

O artigo ainda não foi revisado por pares. Se Waisberg & Katz estiverem corretos, uma estrela se expandiu quando deixou a sequência principal rumo à fase de subgigante e sua matéria formou um envelope comum ao par. O movimento das estrelas dentro do envelope transferiu energia para ele, que nos apareceu mais brilhante.

Naturalmente, não foram apenas os dados antigos que levaram os autores do artigo a essa conclusão. Tiveram peso muito grande a interferometria com VLTI (quatro telescópios auxiliares com 1,8 m de abertura cada um), espectroscopia no MPG (2,2 m) e CFHT (3,6 m), além de fotometria com o telescópio espacial TESS.

É muito impressionante, para qualquer um, que antigas observações a olho nu possam ser colocadas ao lado de dados obtidos com alguns dos mais avançados instrumentos astronômicos já construídos pela humanidade! Isso foi possível porque não temos apenas uma observação isolada, mas medidas consistentes entre si e que se encaixam em um modelo físico.

Como eu dizia, há outros casos na Astrofísica. René Hudec passou anos garimpando arquivos de placas fotográficas do acervo de Harvard atrás de dados de um sistema binário de Buracos Negros. Chegou a encontrar medidas de 1896. Junto com o conhecimento de hoje, identificou flares no sistema. Estima-se que tenhamos até 10 milhões de placas fotográficas guardadas pelo mundo. Muitas já foram digitalizadas. Obter dados relevantes delas é um desafio experimental e de sorte.

Em 2016 Stephenson et al usaram tabelas babilônicas, crônicas chinesas, registros árabes e publicações antigas europeias para compilar dados de eclipses e ocultações lunares de estrelas de 720 a.C a 2015. Estes dados foram essenciais para descobrir que o dia solar médio cresce a uma taxa de 1,8 ms por século. Nenhum instrumento moderno sozinho poderia recuperar este dado. Observações muito antigas, tão simples como “hoje houve um eclipse solar”, podem ajudar a reconstruir a história da rotação do nosso planeta!

Confesso que não sei se teria a paciência destes pesquisadores para me debruçar sobre registros antigos. É um verdadeiro trabalho de arqueologia científica. Mas posso imaginar a alegria de garimpar uma bela pepita de conhecimento e ser capaz de dar novas evidências a sua teoria.

Prof. Alexandre Zabot


Referências