Dos vários livros que li do Carl Sagan, “O mundo assombrado pelos demônios” é o que considero mais importante, porque como bom vinho, vai ficando melhor com a passagem do tempo. Não era para ser assim, infelizmente, porque se ele ainda é atual, significa que não aprendemos suas lições. O último caso que ilustra bem a lamentável ignorância científica da nossa sociedade foi a cobertura midiática do cometa 3I/Atlas.

Ele foi o terceiro viajante interestelar que detectamos (2025), por isso a sigla “3I”. Atlas é porque foi encontrado pelo projeto Atlas. Antes dele, vimos passar por aqui 1I/‘Oumuamua (2017) e 2I/Borisov (2019). No caso de 3I/Atlas, houve uma forte repercussão na mídia de que seria um objeto tecnológico alienígena. O argumento foi defendido publicamente pelo astrônomo Avi Loeb, de Harvard. Ao que parece, ele não quis dar atenção à famosa máxima que Sagan defendia “Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”.

3I/Atlas foi descoberto em 1/7/25 e reconhecido como objeto de fora do Sistema Solar em 2 de julho. O reconhecimento foi rápido por causa da sua órbita. Mesmo sem saber suas propriedades básicas como massa, tamanho e constituição, já era possível determinar que tinha 58 km/s de excesso de velocidade. Ela determina a velocidade que alcança no infinito, quando não sente mais a atração gravitacional do Sol. Os objetos do Sistema Solar estão ligados ao Sol e não alcançam números assim. Logo, vinha de fora. Outros fatores, como direção de movimento, revelaram que a origem era alguma estrela antiga do disco espesso da galáxia.

Já na primeira semana a dinâmica orbital indicava que era um objeto facilmente explicável pelos nossos conhecimentos “padrão”. Ficava ainda a determinar, quais seriam as propriedades físicas do objeto. Para isso era preciso mais tempo de telescópio e também esperar ele se aproximar mais do Sol. Mesmo assim, em 16 de julho o Prof Loeb depositou um artigo no arXiv defendendo que se tratava de tecnologia alienígena. O argumento pesava sobre anomalias no tamanho aparente, ausência de assinaturas cometárias e uma órbita alinhada à eclíptica que insinuaria algo traçado de propósito.

Passaram-se meses, 3I/Atlas se aproximou do Sol, revelou sua cauda cometária, e pudemos observá-lo com vários telescópios. Agora mesmo, em junho, foram divulgados mais dados do James Webb, espectros no infravermelho médio que mostraram uma química incomum, mas de cometa interestelar.

Citando Sagan novamente, “não existem questões proibidas na ciência”. Mas tão importante quanto questionar, é não afirmar mais do que os dados e o conhecimento consolidado da comunidade permitem, especialmente quando se trata de algo tão controverso.

Ao defender, à revelia dos dados, que se tratava de um artefato alienígena, o Prof Loeb não apenas deixou de seguir os bons critérios científicos. Ele permitiu que seu nome e a credibilidade da sua instituição, Harvard, fossem usados para disseminar informações falsas e causar mais perplexidade entre as pessoas que já desconfiam da ciência.

Prof. Alexandre Zabot


Referências

  • Seligman, D. Z. et al. (2025). Discovery and Preliminary Characterization of a Third Interstellar Object: 3I/ATLAS. ApJL. ADS

  • Loeb, A., Hibberd, A. & Crowl, A. (2025). Is the Interstellar Object 3I/ATLAS Alien Technology? (preprint, não revisado por pares). arXiv

  • Belyakov, M. et al. (2026). The Dust Mineralogy of Interstellar Comet 3I/ATLAS from JWST/MIRI Observations (preprint). arXiv