Um artigo publicado na Nature Astronomy neste mês chamou muito minha atenção. Pesquisadores mediram quantos átomos de Ferro-60, Cúrio-247 e Plutônio-244 havia em rochas da crosta de ferro-manganês no fundo do oceano Pacífico. Os valores permitiram dizer que entre 100 milhões e 1 bilhão de anos atrás houve um evento que dispersou estes átomos pelo espaço. Também foi possível afirmar que há pelo menos 10 milhões de anos a Terra vem passando por esta nuvem. Os elementos entram na atmosfera, dissolvem-se no mar e acabam sedimentando no fundo, formando parte das rochas.

O trabalho fica ainda mais interessante quando os autores descrevem que estas medidas ajudam a resolver um antigo enigma da Astrofísica: onde os elementos pesados são forjados? Desde a metade do século passado está claro que o Big Bang forjou praticamente apenas Hidrogênio e Hélio. Logo em seguida os astrofísicos descobriram que elementos até o Ferro são criados no interior das estrelas, por processos de fusão nuclear. No entanto, fundir elementos para além deste limite consome energia. Assim, a natureza os fabrica em outro lugar, e por outro processo.

O caminho foi explicado no famoso artigo B²FH de 1957. O casal Burbidge, com Fowler e Hoyle, mostraram que quando átomos pesados absorvem nêutrons no núcleo, o equilíbrio energético é diminuído e o núcleo decai por um processo beta, emitindo um elétron e transformando o nêutron em próton. Assim, aumenta-se o número atômico. Se os nêutrons são capturados lentamente, gera-se uma cadeia de reação que termina no Bismuto. Se há muitos nêutrons no ambiente, a captura é rápida e podem ser gerados outros elementos, como Ouro e até os mais pesados, como Urânio.

Em geral se diz que elementos pesados são forjados em supernovas. Mas isso é pouco preciso. Supernovas comuns não oferecem ambientes com nêutrons suficientes para a captura rápida. Já em 1974, Lattimer & Schramm mostraram que fusões de objetos compactos deviam ser a resposta.

Em 2017 detectamos as ondas gravitacionais de uma fusão assim. Alguns dias depois da fusão é emitida grande quantidade de luz, numa explosão chamada de Kilonova. Watson e colaboradores analisaram o espectro desta emissão em 2019 e encontraram Estrôncio, provando que as fusões de estrelas de nêutrons são fontes de elementos gerados pela captura rápida de nêutrons.

No entanto, ainda não estava claro se este era o único mecanismo. O artigo da semana passada trouxe luzes porque o Ferro-60 é gerado em estrelas massivas e ejetado por supernovas. A datação mostrou que foi depositado em dois picos, 2-3 e 7 milhões de anos atrás. Já o Plutônio-244 foi depositado continuamente, e gerado bem antes. No entanto, ainda é possível que supernovas raras e extremas possam gerar parte dos núcleos pesados por processos de captura rápida.

O mais interessante deste debate é que técnicas muito distintas trabalham juntas para resolver um quebra cabeças de Astrofísica Nuclear. As respostas científicas se formam em camadas, assim como as rochas no fundo oceânico! E no fim, o mistério nos ajuda a conhecer melhor coisas do nosso dia a dia, como o ouro das nossas alianças.

Prof. Alexandre Zabot


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Referências

  • Burbidge, E. M., Burbidge, G. R., Fowler, W. A. & Hoyle, F. (1957). Synthesis of the Elements in Stars. Reviews of Modern Physics, 29, 547 (B²FH). ADS

  • Watson, D. et al. (2019). Identification of strontium in the merger of two neutron stars. Nature, 574, 497. ADS

  • Koll, D., Fichter, S., Hotchkis, M. A. C., …, Wallner, A. (2026). The timing of the last r-process event near Earth from interstellar 60Fe, 244Pu and 247Cm deposition on Earth. Nature Astronomy. DOI