Neste mês a NASA enviou o Nancy Grace Roman Space Telescope para os preparativos de lançamento pelo Falcon Heavy da SpaceX. Se tudo ocorrer bem, será lançado em agosto e logo fará companhia ao James Webb e ao Euclid no Ponto Lagrangeano L2 da Terra-Sol, a milhões de quilômetros daqui. É mais um equipamento extraordinário abrindo os céus para nós, membro legítimo de uma aristocracia espacial!

Em geral falamos muito de grandes teorias, ideias que mudaram o mundo, mas colocamos pouca ênfase no papel que a tecnologia e os equipamentos desempenharam. Quem me acompanha já sabe que para mim tudo começa com a compreensão dos dados experimentais. Não é uma questão de gosto, é compromisso com a física, que é uma ciência experimental por princípio. Mas ouso ir além disso, também é uma questão de justiça com a história e as pessoas.

O próprio nome do telescópio confirma isso, Nancy Grace Roman foi uma astrônoma americana, falecida em 2018, que desempenhou cargos de liderança na NASA. Esteve à frente, por exemplo, das articulações para viabilizar o Telescópio Espacial Hubble. Como o Roman cobre um nicho de ciência próximo do Hubble, a homenagem é muito bem-vinda.

Muitos equipamentos entraram na história por confirmarem previsões teóricas importantes, como no caso das Ondas Gravitacionais cuja detecção precisou esperar quase um século até que tivéssemos tecnologia para construir o LIGO. Na época, quase ninguém duvidava que elas existissem, mas era preciso confirmar. Esse papel de mera verificação durou pouco: a própria primeira detecção, em 2015, já trouxe uma surpresa, dois buracos negros bem mais pesados do que os modelos previam. Tínhamos inaugurado um novo “sentido” para olhar o cosmos, e ele já começou a entregar fenômenos que ninguém havia previsto.

Isso já aconteceu, por exemplo, quando Karl Jansky e outros pioneiros da radioastronomia começaram a apontar antenas de rádio para o céu. Foi como chegar a um novo continente. Descobrimos os quasares em 1963, a Radiação Cósmica de Fundo em 1965 e os pulsares em 1967. Não exagero se digo que a Astrofísica e a Cosmologia nunca mais foram as mesmas! E tudo por conta de novos equipamentos, novos dados, uma nova maneira de olhar o universo.

Os exemplos se multiplicam, mas além de equipamentos poderosos, também temos técnicas que vêm para mudar a própria maneira de fazer pesquisa. Os famosos surveys em que um telescópio varre o céu coletando quantidades imensas de dados, como em uma pesca por arrasto, nos revelaram informações que só vêm à tona pela estatística. Amostras pequenas não nos ensinam o suficiente sobre a vida das galáxias, a agitada história da expansão do universo e sobre as chances reais de existirem outros planetas com potencial para sustentar vida fora da Terra.

O Roman não será um telescópio revolucionário no sentido de abrir novos horizontes observacionais. Ele observa na mesma faixa do Hubble. Sua força está em ter um campo de visão cem vezes maior, que o torna uma ferramenta valiosa de coleta e curadoria de dados. Um trabalho paciente, necessário para ter uma visão do todo e de extrema importância.

Prof. Alexandre Zabot


Referências

  • Spergel, D. et al. (2015). Wide-Field Infrared Survey Telescope-Astrophysics Focused Telescope Assets WFIRST-AFTA 2015 Report. arXiv:1503.03757 (preprint). arXiv

  • Hewish, A., Bell, S. J. et al. (1968). Observation of a Rapidly Pulsating Radio Source. Nature, 217, 709. ADS

  • Abbott, B. P. et al. (LIGO/Virgo) (2016). Observation of Gravitational Waves from a Binary Black Hole Merger. Phys. Rev. Lett., 116, 061102. ADS