Didier Queloz esteve no Brasil este mês, participando do São Paulo Innovation Week (SPIW). Ele e Michel Mayor ganharam o prêmio Nobel de Física de 2019 pela descoberta do primeiro exoplaneta em torno de estrela como o Sol, em 1995. Trinta anos depois, já são mais de seis mil exoplanetas confirmados, com dezenas tendo grande potencial para abrigar vida. Nós sempre nos perguntamos se havia vida fora da Terra, mas foi apenas neste último século que esta pergunta ganhou contornos científicos, na medida em que criamos instrumentos capazes de respondê-la, tanto modelos matemáticos quanto dados experimentais.
Diz a lenda que em 1950 o físico italiano Enrico Fermi perguntou em Los Alamos: “Onde estão todos?”, referindo-se aos ETs. O argumento era simples: se a Via Láctea tem cerca de cem mil anos-luz de diâmetro, mesmo numa taxa viável de colonização ela poderia ser totalmente preenchida em um milhão de anos. Como nossa galáxia já tem mais de dez bilhões de anos, se ETs existissem, deveriam estar por aí há tempo. Hart (1975) e Tipler (1980) refinaram o cálculo, mas o resultado é o mesmo: a ausência de ETs inteligentes aqui pesa muito contra a existência de outras civilizações.
Mas nem todos concordam e o debate continua vivo. Na SPIW, Adam Frank debateu com Didier Queloz argumentando “se o universo é um oceano, só vasculhamos o equivalente ao volume de uma banheira”. Aqui muitos se lembrarão da famosa equação de Drake que relaciona a probabilidade de existir vida inteligente a partir de parâmetros como número de estrelas na galáxia, quantidade média de planetas em torno de estrelas e assim por diante. Quando foi proposta, esta equação era um exercício de adivinhação, mas agora já temos estatísticas confiáveis para poder fazer estimativas. Com base nestes dados, e em análises mais robustas, Sandberg et al (2018) mostraram que a probabilidade de estarmos sozinhos na Via Láctea é algo entre 30% a 50%.
Várias pesquisas de hoje trarão mais luz sobre o tema em breve. Em particular, considero de extrema importância todo o esforço atual em torno da procura por sinais de vidas em atmosferas de exoplanetas. Primeiro porque é algo que pode ser escalonado para milhares de objetos. Segundo, porque se vamos investir tempo procurando por vida, é muito melhor fazê-lo em um alvo que tenha condições mais favoráveis. E em terceiro lugar, porque vida simples certamente é mais provável que a inteligente e sabemos que ela modifica o planeta de origem de várias formas detectáveis.
O James Webb tem melhorado muito nosso conhecimento da química de atmosferas de exoplanetas. Ele tem condições de detectar sinais de vida. Mesmo assim, os europeus têm três equipamentos dedicados previstos para a próxima década. PLATO (2027) será um satélite projetado para descobrir exoplanetas. Outro satélite, ARIEL (2029), foi desenhado para estudar as atmosferas deles. Em solo, o ANDES (2030) será um instrumento do ELT (telescópio de 39,5 metros!) que fará espectros super precisos.
Para quem achou que debater vida fora da Terra em um evento de inovação era esquisito, todo este cenário traçado deixa mais claro que o problema envolve sim tecnologia de ponta. Estou confiante de que as próximas décadas nos reservam grandes avanços na questão da vida fora da Terra.
Prof. Alexandre Zabot
Referências
Drake, F. (1965). The Radio Search for Intelligent Extraterrestrial Life, em Current Aspects of Exobiology, G. Mamikunian & M. H. Briggs (eds.), Pergamon Press.
Hart, M. (1975). An explanation for the absence of extraterrestrials on Earth. QJRAS 16, 128. ADS
Mayor, M. & Queloz, D. (1995). A Jupiter-mass companion to a solar-type star. Nature 378, 355. ADS