Betelgeuse é uma estrela de cor vermelha, brilhante e visível a olho nu na constelação de Órion. Há registros de que vários povos antigos a identificaram como uma estrela de brilho variável. Em 2020 ela ficou muito mais fraca do que o habitual, perceptível por qualquer pessoa. Também observamos uma enxurrada de manchetes sensacionalistas do tipo “vai explodir”! Não foram poucas as pessoas que me manifestaram preocupação com o iminente fim da Terra.

O assunto foi esquecido pela grande mídia e no final do ano passado tivemos uma resposta: é um sistema binário muito incomum. Betelgeuse tem 17 massas solares e sua companheira Siwarha pode ser até vinte vezes menos massiva. É um caso raro, o comum é não serem muito diferentes. Além disso, ela está imersa dentro da atmosfera expandida de Betelgeuse! Tudo isso tornou esta descoberta uma maravilhosa saga científica que durou quase dois séculos.

John Herschel começou o monitoramento sistemático de Betelgeuse em 1836. Os dados de variabilidade foram mantidos por astrônomos desde então, com especial destaque para astrônomos amadores da AAVSO que anotaram o brilho da estrela por todo século XX. Esta base temporal longa foi essencial para identificar um período de variabilidade de 5,8 anos em uma curva de luz que varia muito por atividades convectivas e pela pulsação radial da estrela. Betelgeuse é uma estrela supergigante vermelha nas fases finais de sua vida, por isso é naturalmente muito variável.

Ainda em 1908, Plummer mediu as velocidades radiais da estrela e sugeriu que se tratava de um par binário. Mas não era possível ver o par, talvez as estrelas estivessem muito próximas. Sanford e outros confirmaram a modulação na década de 1930. Entretanto, as medidas tinham alta variabilidade e pouca consistência, fazendo a tese perder força. Talvez não passasse de algum fenômeno da própria estrela.

A partir dos anos 1990 passou a ser possível obter uma resolução angular alta o suficiente para ver detalhes da fotosfera e da cromosfera, indicando um ponto brilhante, que podia ser muitas coisas. A maioria da comunidade acreditava ser efeito de convecção em larga escala.

A virada de jogo aconteceu no grande obscurecimento de 2020. O comportamento da curva de luz era muito atípico e uma tese de obscurecimento por poeira ganhou força entre astrônomos, enquanto a imprensa divulgava uma provável explosão de supernova. Mas o caso fez muitos astrônomos se voltarem para Betelgeuse.

O desfecho aconteceu no final de 2024 quando alguns grupos restauraram a hipótese de um sistema binário, de 1908 de Plummer. Se estivessem certos, naquele ano Siwarha estaria em elongação máxima e seria visível por imageamento speckle. Em 9 de dezembro de 2024, Howell et al a encontraram exatamente onde as predições indicavam!

O caso Betelgeuse tornou-se o arquétipo do trabalho em Astrofísica. Não houve um herói, nenhum momento “eureka” ou dado isolado que resolveu tudo. Foi uma luta de quase duzentos anos, travada por centenas de cientistas, com dezenas de técnicas e instrumentos distintos. Estamos travando muitas batalhas semelhantes hoje.

Prof. Alexandre Zabot


Referências

  • Joyce, M., Leung, S.-C., Molnár, L. et al. (2020). Standing on the Shoulders of Giants: New Mass and Distance Estimates for Betelgeuse through Combined Evolutionary, Asteroseismic, and Hydrodynamic Simulations. ApJ 902, 63. ADS

  • MacLeod, M., Antoni, A., Huang, C.-L. et al. (2025). Radial Velocity and Astrometric Evidence for a Close Companion to Betelgeuse. ApJ 978, 50. arXiv

  • Howell, S. B., Ciardi, D. R., Clark, C. A. et al. (2025). The Probable Direct-imaging Detection of the Stellar Companion to Betelgeuse. ApJL 988, L47. ApJL