Tanto a Matéria Escura quanto a Energia Escura foram propostas há quase um século. Desde então acumulamos comprovações em dezenas de cenários astrofísicos e cosmológicos diferentes, a ponto de hoje parecer impossível fazer Cosmologia sem elas. O que incomoda a todos é que juntas representam 95% da constituição do Universo e ainda não fazemos ideia do que são.
Penso que este cenário condiz com os sinais que o físico filósofo da ciência, Thomas Kuhn, descreveu no seu famoso livro “A Estrutura das revoluções científicas”, de 1962. É um livro cuja leitura sempre me causa sobressaltos.
Kuhn destrói a ideia de que a ciência evolui com avanços contínuos e cumulativos. Para ele, na maior parte do tempo vivemos um período de “ciência normal” em que os cientistas não tentam “descobrir novidades”, apenas resolvem “quebra-cabeças” com respostas já esperadas para comprovar o “paradigma” reinante. Mas, a contragosto dos pesquisadores, surgem peças que não se encaixam bem no seu belo empreendimento. Estas “anomalias” são deixadas de lado para serem resolvidas mais tarde.
Não é tampar o Sol com a peneira, simplesmente não conseguem enxergar que algo novo é necessário. Temos feito isso há um século, deixando a solução para outros: “os astrofísicos encontrarão um objeto ou os físicos descobrirão uma partícula, sigamos em frente que logo teremos uma resposta e tudo se encaixará”.
Lembra a história de Lord Kelvin quando, em 1900, argumentou que existiam duas “nuvens” que obscureciam a Física. Uma era o calor específico e a outra o éter luminífero. Nas duas décadas seguintes, a Mecânica Quântica e a Relatividade surgiram e transformaram a física.
Novas anomalias têm se acumulado na Cosmologia e a descoberta da Energia Escura só piorou o status do paradigma cosmológico. O Prof. Jorge Horvath da USP escreveu sobre isso em 2009. Já se passaram mais de quinze anos e o argumento dele só ganhou força. Resultados combinados do DESI, JWST e ACT alcançam uma precisão estatística superior a 5σ de que a “tensão de Hubble” é uma divergência real.
Fora da Cosmologia, na Física de Partículas, a busca pelas WIMPs, candidatas favoritas a partículas de Matéria Escura, se mostrou infrutífera depois de décadas de experimentos caros como LZ, XENONnT, PandaX-4T e outros.
A cada dia outro sintoma descrito por Kuhn tem ficado mais evidente: a proliferação de alternativas teóricas. Houve um aumento expressivo no número de artigos com ideias de todo tipo para resolver a questão. O que me lembra outra história, contada pelo Feynman no seu discurso da premiação do Nobel. Ao ler o livro do Dirac encontrou uma frase que o motivou muito: “Parece que algumas ideias físicas essencialmente novas são necessárias aqui”. Estamos vivendo nosso momento Dirac na Cosmologia.
Sim, todos queremos novas ideias. O que não está claro é quando estaremos prontos para ver as pérolas do séc. XX, a Relatividade e Quântica, em escombros. Não se iluda, isso é necessário pois outra coisa que Kuhn desmistifica é que uma teoria seja um aprimoramento da anterior.

Prof. Alexandre Zabot


Referências

  • Kuhn, T. S. (1962). A estrutura das revoluções científicas. Perspectiva

  • Horvath, J. E. (2009). Dark matter, dark energy and modern cosmology: the case for a Kuhnian paradigm shift. arXiv

  • Di Valentino, E., Said, J. L. & Saridakis, E. N. (2026). Tensions in Cosmology 2025. Nature Astronomy