No último dia 26 de março recebemos o primeiro pacote de dados do Observatório Vera Rubin. Foi uma festa que já era esperada há anos. Todas nossas expectativas foram atendidas. Terminada a fase de primeiros ajustes, nos preparamos para um período de coleta de dados realmente relevantes para a Astrofísica. A empolgação dos cientistas é enorme, porque muito maior é a capacidade deste telescópio de impactar para sempre o que conhecemos sobre o Universo.
O Rubin é o que há de mais avançado em projetos de “varredura do céu” (surveys em inglês). Nestes projetos, os astrofísicos apontam um telescópio para regiões do céu e coletam dados de grande quantidade de objetos. É diferente de, por exemplo, apontar o telescópio para um objeto e obter dados apenas dele. Os surveys começaram junto com a Astrofísica, tão logo alguém acoplou uma câmera fotográfica no telescópio. Entre os pioneiros está o Observatório de Harvard, que nos legou o sistema de classificação espectral de estrelas.
Ao longo do século XX muitos outros grandes surveys aconteceram. Marcou época na Cosmologia o Sloan, que a partir dos anos 2000 catalogou 500 milhões de objetos. Antes dele, quem pesquisava galáxias costumava estar limitado a amostras de centenas de objetos. Os surveys não entregam apenas dados de muitos objetos, entregam dados consistentes entre si: observados com os mesmos equipamentos, da mesma forma. Para análises estatísticas isso faz toda a diferença.
Quando se mapeia o céu todo, é preciso ser rápido e ter um campo de visão grande. Nos dados divulgados recentemente, o Rubin catalogou 2,3 milhões de objetos em apenas 48 noites. Estamos falando de 20 terabytes de dados em uma noite! Destes, mais da metade eram galáxias.
Com essa capacidade, esperamos construir mapas tridimensionais das localizações e características de mais de 10 bilhões de galáxias. Essa informação é um tesouro para a Cosmologia e representa mais de 30 vezes os números do Sloan. Sem falar que a precisão agora é bem mais alta.
Este mapa nos permitirá descobrir como a Matéria Escura se distribui no universo. Ela altera as trajetórias da luz pelo cosmos, criando lentes gravitacionais, que serão captadas nas imagens. Não é uma detecção direta da Matéria Escura, não poderemos saber o que ela é, mas determinar como ela se distribui nos ensina muito sobre a física das suas interações.
A física da Energia Escura também vai se beneficiar destes dados, porque ela controla, por exemplo, como aglomerados de galáxias se agrupam. Assim, o mapa pode ser confrontado com as teorias de evolução, refinando o Modelo do Big Bang. Um desafio em aberto hoje é saber se a Energia Escura é constante ou variou com a idade do Universo.
Hoje a Cosmologia é a área mais vibrante da Física, porque concentra todas as questões mais fundamentais: composição do universo, teorias de gravitação, origem do cosmos entre outras. E o Vera Rubin está no centro das atenções, porque sem dados a Física não passa de conversa fiada. Ainda vamos falar muito dele.
Prof. Alexandre Zabot
Referências
- Rubin Science Consortium et al. (2026). The Vera C. Rubin Observatory Data Preview 1. arXiv
- NSF–DOE Vera C. Rubin Observatory (2026). Ever-changing Universe Revealed in First Imagery From NSF–DOE Vera C. Rubin Observatory. rubinobservatory.org
- Drlica-Wagner, A. et al. (2022). Snowmass2021: Vera C. Rubin Observatory as a Flagship Dark Matter Experiment. arXiv